Manifesto à felicidade

Se você buscar o que é felicidade no dicionário pode sentir-se… infeliz. A definição não traduz nem um décimo da “insustentável leveza do ser” que esse sentimento,  essa emoção,  esse estado de ser na verdade, nos proporciona. Por isso, prefiro as definições poéticas e filosóficas.

De todas as que eu li e ouvi até agora, a que mais simpatizo diz que felicidade é um modo de viajar (1). Fico com esta definição até porque atende à compreensão da minha própria felicidade.

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração (2)

A felicidade nem sempre é realizada, ou acontece através de rompantes de alegria, ou explosões de risadas, gargalhadas. É, ou pode ser também… Também não se dá através (e apenas) das realizações materiais ou (e apenas) da ascensão social. Isso é outra coisa. E sim, já “sob protestos”, dinheiro não compra felicidade. Mas chegaremos nessa questão, acredito.

Em tempos atuais onde a felicidade ou o “tem-que-ser-feliz” ou o “tem-que-se-divertir, são tão valorizados, superestimados e cobrados, onde as pessoas disputam e querem se assegurar como seres felizes através da exposição da sua própria cota de felicidade em flashes e fotos, um consumo sem limites, entre essas e outras coisas mais ou menos “tóxicas” torna-se quase impossível falar sobre felicidade em termos de… realização pessoal. De plenitude.

Mas, eu resolvi correr o risco e escrevi meu manifesto à felicidade ainda que ele renda vaias…

Felicidade é aquela sensação boa de frio na barriga. Aquele sorriso bobo no rosto. Quando estamos felizes, nosso coração canta. Os olhos sorriem. Não caminhamos. Dançamos. Flutuamos. Felicidade é expansão. Vontade de voar. De abraçar o mundo. Mas como chegar então a esse estado pleno do ser?

O filósofo grego Aristóteles definiu felicidade como um hábito, o resultado de vários hábitos. Para Dalai Lama a felicidade não vem pronta. Ela é construída. Nietzsche tem a famosa frase, “é preciso manter o caos dentro de si para dar luz à uma estrela dançante”.

Ora, assim nos parece que a felicidade não é algo tão fácil que se pega e compra na prateleira, ou pede-se para entregar em casa… e pode postar. É necessário um contraponto para se chegar à felicidade… É necessário conhecer, ter estado do outro lado para reconhecer a felicidade (e o inverso é verdadeiro). Nesse sentido, cito nosso poeta (3) “o sofrimento é o intervalo entre duas felicidades”.

Poeticamente, a felicidade às vezes se manifesta “sem motivo”. Ou por motivos, digamos, não tão valorizados hoje… A música preferida quando toca na rádio, um brigadeiro roubado, a descoberta da lua escondida, um elogio inesperado, a felicidade compartilhada… Um gesto ou um abraço sinceros. Essa felicidade “do nada” é aquela que vez ou outra até incomoda alguém que pergunta: mas você está feliz por quê? Do nada? Viu passarinho verde (4)?! Como se precisasse muito para ser feliz, você já deve ter pensado.

O filosofo inglês Alain de Botton no seu livro A Arquitetura da Felicidade (5) discute uma questão interessante: para ele a arquitetura deve ser orientada para expressar uma mensagem do ideal de felicidade que gostaríamos de viver. Para Botton, as pessoas são profundamente influenciadas e estão suscetíveis (pelo seu humor ou sua sensibilidade) à arquitetura a sua volta – seja a da casa que habitam ou do ambiente de trabalho, assim como a das ruas (pobre de nós em São Paulo!). Por isso, defende ele, é preciso construir condições arquitetônicas necessárias para que as pessoas sejam felizes.

Opa, mas agora estamos falando de arquitetura?! Sim, porque encontramos nessa leitura de Botton, a partir da arquitetura, a metáfora que vai de encontro à filosofia para dizer que felicidade antes de chegar a ser felicidade, passa primeiro pela construção do ser.

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não (2)

Cada qual tem seu ideal de felicidade. Assim como na arquitetura, para citar de Botton novamente, “procuramos construir nosso ideal de casa ou decorar um cômodo, para lembrarmos de quem somos e idealmente poderíamos ser; mais que um refúgio físico, é também psicológico, o guardião da identidade de seus habitantes. Cada obra de arquitetura expõe uma visão de felicidade”.

Sim, a gente pode se sentir feliz “do nada”. Por que talvez não falte nada.

Há quem precise de muito, e sempre mais para ser ou se sentir feliz. Há quem precise de menos. Menos alvoroço, menos blábláblá. Cada ser constrói ao seu redor, se cerca das coisas que “guardam” ou remetem à sua identidade e ideal de felicidade. No tempo que eu não conhecia a tristeza de verdade, felicidade estava relacionada somente aos rompantes de alegria. Felicidade era sinônimo de uma grande festa.

Descobri que felicidade também é recolhimento. Um dia na praia, uma tarde no sofá com um livro ou uma revista. A felicidade pode ser quieta e silenciosa. Amorosa e calorosa. O importante é ser feliz e construir bases sólidas para isso. Com clareza do que realmente importa. Vez ou outra mudamos apenas um ou outro detalhe na decoração.

NOTAS
(1) “A felicidade não é uma estação de chegada, mas um modo de viajar”. (M. Ruberck)
(2) Samba da Benção, Vinícius de Moraes
(3) Vinícius de Moraes
(4) Significado: Estar apaixonado. Histórico: O passarinho em questão é uma espécie de periquito verde. Conta uma lenda que alguns românticos rapazes do século passado adestravam o bichinho para que ele levasse no bico uma carta de amor para a namorada. Assim, o casal de apaixonados tinha grandes chances de burlar a vigilância de um paizão ranzinza.
(5) Alain de Botton, A Arquitetura da Felicidade, Editora Rocco

1 comentário COMENTE TAMBÉM

texto incrível, amei! ;*

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